sexta-feira, 10 de abril de 2009

ESTAMOS AQUI PARA FAZER O QUE ESTAMOS AQUI PARA FAZER


...se o amor MATA?
CLARO!
Se não matasse, eu não estaria aqui hoje para contar.
foto: "mulher escovando seu cabelo", de Edgar Degas, 1886

A MINHA ESCOLA LIVRO

Por quê seguir o coelho branco na escola (?)

Pera aí!
(ou como dizem na escola: Espera aí!)
Quer dizer que eu posso seguir o coelho
Pelo mundo dos rabiscos gigantes
(tão maiores que eu, colossos!)
dançando e girando, correndo e deslizando?!
- Ao invés de tomar aquele chato caminho insosso de broncas retas?

Ora, ora!
Que das letras e formas eu posso,
Mais que ouvir a aspereza do errado ou duvidoso,
Senti-las como eu quiser,
Seja com olhos, ouvidos, lábios (cantatas) ou nariz?
(se os contornos de Manoel de Barros forem cheirosos!)

Viva!
Vivo sim! Como Alice no trem de voltas e meia em 80 dias
De vida, leitura, prazer, sabor, cor e dengo
(amor pela língua-arte como por um bichinho de estimação).
Na sala de aula, zuuuuuum! Passa o coelho abrindo o mundo
Como as mãos de um Maluquinho de pedra
Que pega carona em cometas,
Longe das madastras más que destroçam nossos sonhos
Com letras sem música ou rima.

Assim, a toca do coelho e chamado Senhor Literatura,
Que não tem pressa, pois está catando gravetos e restos de sobremesa
para fazer poesia
é profunda, sem nos fundar a cuca ou os dedos miúdos
que seguem as linhas maravilhosas do brochura dourado.

Tenho certeza que,
Se o coelho fantástico nos deixasse uma pedra
No meio do caminho de nossas vistas (tão fatigadas, as coitadas)
Mandaríamos poesias contra as guerras
(Tesourinhas bem brasilienses ao invés de armas).
Ali, no meio dos jovens orvalhos desnudos de letras.

A escola seria O outro lado do rio,
O campo, o País das Maravilhas!
Onde tomaríamos chá com o chapeleiro, com o velho professor
E amaríamos o mundo como pequenos pedaços de pêra com leite
Para termos vontade de acordar amanhã.

Conde Luís F.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

SIM, EU VOU VER O MAIDEN!!!!!!!!! \,,,/

Sim, eu vou. Não tenho o menor receio de dizer de pulmões inflados, sorriso no rosto, punho cerrado, voz forte: eu vou ver o Iron Maiden!!!

Por que eu não tenho receio? Porque hoje, todo o tabu irracional e inocente que rotula as pessoas não faz parte de mim. Estou longe daqueles seres que acham que são menos "metaleiros" porque escutam Interpol, que se acham menos alternativos porque gostam de Whitesnake, que são menos góticos porque gostam de Rage Against The Machine. Eu, do fundo do meu coração popular, nervoso, indignado, sarcástico, irreverente, não me sinto menos punk porque gosto de Iron Maiden. Nem porque gosto de Fella Kuti, ou de Manu Chao, ou de Black Alien. E sim, eu gosto de Interpol, de Whitesnake e de RATM!

Eu gosto de Música. Gosto de som. Gosto de ruído. De voz. Gosto do nervosismo de um baterista tocando jazz fusion e da levada suingada de James Brown. Gosto de Rock and Roll. Sou louco por rockabilly. Por Beatles! Gosto muito de progressivo (um dos discos mais bonitos que já ouvi foi o Tales From Topographic Oceans, do Yes – disco duplo com quatro músicas, uma para cada lado do LP). Gosto de Trash Metal, Death Metal, Grind Core, Hardcore. Gosto de Punk Rock sim!!! Ouvidos zunindo por The Exploited, por Varukers, por UK Subs. O bom e velho The Clash! A raiva pura e contagiante de Invasores de Cérebro. De Ratos de Porão! De Replicantes! De The Adicts. Mas acima de tudo, gosto de música, gosto de rock and roll! Independente da década, do timbre de voz ou de guitarra, do peso ou não da música. Viva o rock and roll!!!

E eu sempre, desde "menino moço", disse pra quem quisesse ouvir: "o Maiden é a banda com a performance ao vivo mais bombástica que já vi". Virei fã desde que vi os caras ao vivo pela primeira vez. São históricos! São fodásticos! Um som que parece uma metralhadora, um motor! E muita energia (quem consegue ficar parado num show deles?!).

Estou ansioso! Vai ser o show da minha vida, tudo lá, toda a estrutura, as melhores músicas (afinal é a turnê do Somewhere Back In Time), a melhor formação (três extraordinários guitarristas, um dos baixistas mais cultuados de todos os tempos, um baterista que não usa pedal duplo para fazer heavy metal e ninguém menos que mr. Bruce Dickinson soltando a maior voz do metal – e uma das maiores do rock – de todos os tempos).

Peço licença ao punk, aos punks farofa, aos extremistas e aos preocupados demais com a aparência. Mas eu vou ver Maiden ao vivo!

SCREEEEEEAAAAMMMM FOR ME BRASÍLIAAAAAAAA!!!!!!!!










DICA BARULHENTA: ouça, se tiver ouvidos!!!

discos para serem ouvidos no último volume!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Big Bosta Brasil!


Sim, meus amigos, resolvi passar por cima de guerra na Faixa de Gaza, conflitos em São Paulo, aumento de passagem no DF (de novo!) para falar dessa grande merda da TV brasileira (e do mundo). Por quê? Veja.

Estava eu e minha Condessa com a TV ligada na quinta-feira, jogando conversa fora. Atenção desviada para o aparelho. Pelo que sei, sempre rola uma festa de arromba pros internos exibicionistas se embriagarem, fazerem merda e dar audiência (assumem uma possível homossexualidade, se beijam, se comem, vomitam, choram, brigam, essas coisas...). E justamente uma dessas tava rolando.

O tema era "Nordeste". Chapéus de couro - e caipiras(?!) - comida, bebida, forró. Até aí, nada que me enojasse o suficiente para me revoltar. Mas então, a câmera da Globo deu aquela tomada de cima. A pista de dança era, como eu posso dizer...um solo árido, seco. Algo como um rio ou açude seco.

Você se pergunta: "tá, mas e daí?" Bom, pra mim é simples. Como algo que é motivo de sofrimento para tanta gente no interior da região mais pobre (financeiramente) do país pode ser adorno de uma coisa tão estúpida como uma festa desse programa idiota? Pare e pense: não é uma coisa besta. O tablado onde aquelas pessoas de origem urbana classe média, alta, loucas por uma exposição e dinheiro, dançavam era uma imagem da sequidão que castiga muitos (MUITOS!) brasileiros! Um açude que secou e o gado não pode comer, morre de fome. Um rio que não ajuda famílias a matar sua sede, uma chuva que não cai para irrigar a plantação. Os "BBBs" dançavam, literalmente, sobre a miséria nordestina. Eram os ricos do Sul-Sudeste mostrando o quanto são superiores. Convenhamos, desde quando o solo árido do Nordeste seco pode ser adorno de festa?

Se assim for, quando fizerem uma festa com temática carioca, vão deixar de lado a imagem do Leblon, Copacabana e Ipanema para enfeitar o espaço com imagens de favelas, ônibus incendiados, armas de grosso calibre e tiros de fuzil ao invés de fogos de artifício?

A quem serve um programa desse, que nos obriga a engolir sem querer imagens como essa? Não foi por acaso. Não existe acaso. E o telespectador vê achando que é normal.

Minha dica barulhenta de hoje não é um disco para você ouvir e nem é punk. Mas é uma canção de Rick Wakeman, tecladista, pianista, organista, ídolo do rock progressivo. O nome da música é "Robot Man" e integra seu disco chamado "1984", adaptação fonográfica do livro de Gerge Orwell. Para quem não sabe, o nome do programa é inspirado nessa obra literária. Na história, a sociedade vive sob a vigilância constante/ininterrupta do "Grande Irmão" (Big Brother), que mantém a ordem por meio do medo.
Essa música é justamente o questionamento sobre a racionalidade desse sistema centrado no Grande Irmão e nos controlados pela ideologia pregada, onde o homem tem sua inteligência subjugada, torando-se um "robô".

Robot Man
Rick Wakeman
Composição: Tim Rice
I had doubts as to where we're going
But you gotta hand it to the guys upstairs
I've been put on a whole new programme
Don't have to handle my own affairs
Everything I want is on my print-out
I don't need anything any more
I'm not confused by useless knowledge

I don't even know if it's 1984 for sure

Rules rule ok ask no questions
Welcome to the age of consent
Fasten seat belts drive with caution
Don't take shots at the president
Robot man is a wonderful creation
Automatically obeys the law
Laws of nature, man and physics

I don't even know if it's 1984 for sure
1984?

The only thing you have to know
Big brother is watching you
You love him

Robot man is a wonderful creation
Automatically obeys the law
You love him, you love him, you love him

I don't even know if it's 1984 for sure

The only thing you have to know
Big brother is watching you
You love him

What I need is a real emotion
A little love and a lot of despair
Robot man has a problem breathing
Robot man don't know how to care
Payed my dues but the dudes don't listen
I'd cry out but who the hell for?

I'd love to know what is means to suffer
I don't even know if it's 1984 for sure
1984?

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Grito Suburbano ou Uma Publicação Chamada FANZINE

Mídia. Muitas vezes, uma expressão que, nos dias de hoje, assusta a qualquer um que nada contra a corrente do “sistema”, afinal é, geralmente, associada com “publicidade” e “alienação”. Mas muitos VIVOS suburbanos se utilizam de uma “mídia” para dar voz aos seus anseios libertários, revolucionários, nervosos, prazerosos, divertidos ou fanáticos. Uma “mídia independente”, de rua, de próprio punho, feita de suor e braços.

O fanzine.

A palavra fanzine é formada por outras duas de origem inglesa: fanatic magazine, literalmente, “revista de fã”. Uma publicação sem restrições mercadológicas, o fanzine expressa o que seus criadores quiserem, idéias e mensagens próprias, quase como um panfleto. Sobre os mais variados assuntos, o fanzine circula pelo submundo do pop-cult como propagador, como mensageiro dos ventos.
De caráter totalmente independente, uma legítima mídia de rua, o fanzine, dentro de movimentos sociais, culturais, políticos ou apolíticos, artísticos e afins prima pela sua honestidade. Nas mãos certas é uma ferramenta decente de luta, de resistência e de comunicação. Pelo esforço de quem o edita, chega àqueles que precisam dele, que podem multiplicá-lo. Sim, legítima mídia contracultural.

O primeiro fanzine que se tem registro no Brasil é o Ficção, de Edson Rontani, publicado em Piracicaba/SP nos idos de 1965. Nessa época, o termo utilizado era “boletim”. A motivação de Edson foi manter contato com colecionadores de publicações em quadrinhos da época, trazendo um acervo de informações desses materiais desde 1905. A grande produção de fanzines no país está ligada aos quadrinhos, sendo recentemente incorporados à história dos quadrinhos brasileiros, uma vez que eram um grito contra o descaso das editoras em relação a esse tipo de arte popular.

Exemplo underground de cultura, os fanzines tem força histórica: foram marcantes nos movimentos franceses de contra-cultura do ano de 1968.

Trago nesse blog uma motivação “fanzinesca”, como se fosse um zine digital. Voltando a citar pensamentos de Gramsci, vejo o fanzine como uma maneira de não subjugação cultural, uma maneira de utilizar espaços abertos dentro do próprio sistema para lutar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

SORRISO DO DIA: Feliz Natal?

Texto escrito por Carlão, grande amigo de idéias revolucionárias...





O Espírito de Natal

Com a chegada do fim do ano somos bombardeados por um arsenal de propagandas e campanhas que tentam, a todo o momento, nos convencer da existência de um “espírito de natal”. Mas o que seria este espírito de natal? A primeira vista parece ser algo abstrato, uma entidade metafísica intrinsecamente ligada ao mês de dezembro, mas o que realmente está por trás deste espírito?


A suposta existência deste espírito de natal teria a força de tornar as pessoas, ao menos temporariamente, mais generosas, propensas à caridade e realmente preocupadas com as outras pessoas. Mas isto revela apenas uma das facetas do suposto espírito de natal que oscila entre manifestações psicológicas e econômicas, basicamente. Sua manifestação psicológica é perceptível nas ações tipicamente associadas ao natal como doações de brinquedos e comidas aos mais pobres. Essas campanhas, que são claramente um engodo, pois não tem como principal objetivo a solução do problema da miséria, surtem efeito real apenas nas mentes daqueles que possuem dinheiro e desejam terminar o ano com um falso sentimento de terem ajudado o próximo que, claro, eles mesmos matem na miséria durante o ano todo ao acumular sua riqueza. Assim, como não passa por suas cabeças a divisão completa de suas riquezas com aqueles que são excluídos e marginalizados do processo produtivo e, com isso, apenas oscilam no pêndulo maldito do desemprego e subemprego, buscam um alívio em suas consciências através do placebo das doações natalícias. O mais engraçado é que essa busca por uma paz na consciência acontece basicamente apenas no período de natal, como se quem vive na miséria comesse, vestisse, ou mesmo, brincasse apenas no final do ano. Daqui saem todos os anos aquelas hipócritas frases desejando que o espírito de natal dure o ano inteiro, mas é claro que isso não poderá acontecer porque a miséria tem seu lugar bem determinado no mundo capitalista.


As campanhas de doação de brinquedos possuem, além desta característica de alívio da consciência burguesa, também um função econômica bastante singular. Os filhos da burguesia são estimulados a doarem seus velhos brinquedos aos “mais necessitados” criando assim, uma necessidade por novos brinquedos que deverão ser comprados por seus pais e parentes por ocasião do natal. As crianças ricas, portanto completamente inseridas no mercado de consumo, realizam com primazia sua, ainda pequena, função consumista ao exigirem novos brinquedos no natal e são convencidas de que realizam um grande ato de amor ao doarem seus brinquedos velhos às crianças das favelas. Porém, ninguém explica a elas que seus pais somente podem lhes dar os brinquedos novos e caros que elas exigem porque há uma multidão de crianças que vivem marginalizadas na miséria absoluta e, por isso, não podem ganhar presente algum de natal além das míseras doações natalinas estimuladas pelo espírito de natal.


Como não há nenhuma intenção de proporcionar condições dignas de vida a toda a população, pois o luxo de uns poucos somente pode existir sustentado pela miséria absoluta de milhares, o mínimo que pode ser feito para amenizar a situação são campanhas de doações onde os realizadores, ou seja, os ricos, se mostram como verdadeiros paladinos da justiça social e heróis dos “mais necessitados”. Os ricos não demonstram que, por trás de todas essas campanhas assistencialistas, há somente a clara intenção de manutenção de toda essa estrutura social desigual, pois não possuem disposição para acabar com a miséria do país e tentam acalmar os ímpetos mais radicais, ou mesmo revolucionários, com doações das migalhas de seus fartos banquetes. Como não há o desejo de que também os pobres possam consumir aquilo que desejam, apenas recebem aquilo que é desprezado pelos ricos, ou seja, o seu lixo, para que não tenham a intenção de tomar dos ricos aquilo que eles não possuem. Assim, essas campanhas cumprem seu papel econômico ao estimular o descarte de artigos já usados, doados aos pobres, e o consumo de novos artigos para satisfazer os anseios burgueses do espírito de natal.
Carlos Henrique Barreto é estudante de Filosofia da Universidade de Brasília

Dica brulhenta: Garotos Podres é foda! Pena que "Papai Noel Filho da Puta" teve que virar "Papai Noel Velho Batuta"...




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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ser Punk - Por Greg Graffin, vocalista e líder do Bad Religion desde sempre


”Recebi uma carta de um punk que afirmou que era fã do Bad Religion. Era, isto é, até nós o decepcionarmos lançando nossos dois últimos discos, os quais não se encaixaram em sua definição de punk. Não havia nenhuma música contra o sistema, ele alegou (o que não é verdade, a propósito), então 'como você pode chamar isso de Bad Religion? De fato, como vocês podem se chamar de punks?'” Por Greg Graffin/ Bad Religion


"Ele continuou a afirmar que nós não sabemos nada sobre o que é ser punk porque 'estamos muito longe disso'. Ele estava claramente com raiva e intolerante com o que nossas músicas recentes tinham a dizer. Ele acreditava que a santidade do punk havia sido infringida de alguma forma pelos nossos dois últimos discos (mas ele também declarou que nossos sete discos anteriores também eram culpados de tal traição).


No mesmo dia, abordei uma pessoa na rua na cidade em que eu moro e ela me reconheceu como vocalista do Bad Religion. Assim como o cara que me mandou a carta, ele também era punk, mas não estava com raiva ou me julgando. Nós conversamos um pouco e ele falou sobre como hoje em dia cada vez mais jovens em geral estão hostis e estranhos e não querem ouvir ninguém mais além de seus confortáveis círculos de amizade. E em como as pessoas parecem estar motivadas atualmente por uma força invisível de mente fechada. Seu desejo aberto por opinião e seu foco em assuntos relevantes tinham frescor e lembrei-me de todas as coisas legais a respeito dos punks com quem eu cresci e com que ainda interajo hoje: abertos, inclusivos, despretensiosos e não arrogantes e dispostos a confrontarem pessoas ou instituições que parecem injustas ou falsas. Ao invés de estarmos preocupados em estabelecer uma instituição que poderia excluir outros, nós estávamos interessados em incluir pessoas que se sentem deixadas de lado ou desiludidas com seu círculo social.


Naquele dia, eu vivenciei uma das melhores coisas sobre o punk - os traços mostrados pelo garoto na rua - e a pior coisa - o pensamento negativo, egoísta, dogmático do garoto que escreveu a carta. Ambos se auto-intitulavam punks e eram de pólos ideológicos opostos. Há 16 anos sou membro dessa estranha subcultura e eu percebi que existem facções liberais e conservadoras. Nesse sentido, é um microcosmo de sociedade em geral. É uma tarefa insana tentar definir o punk universalmente. Seus significados são confundidos em todo lugar por circunstâncias contextuais. Uma garota de 16 anos de uma família rica e religiosa que vai à igreja todo domingo, com seu moicano verde e uma camiseta escrito ‘Fuck Jesus’ é punk. Mas é também punk um professor de biologia de 42 anos que alega que as idéias de Charles Darwin estavam erradas. Nenhumas das pessoas ouviram falar ou se conhecem e nem freqüentam o mesmo clube underground. Mas suas lutas para estabelecerem instituições e reações ao pensamento dogmático as une espiritualmente. Se isso é genético ou ensinado, não sabemos. Mas eu também sinto carinho por todos que compartilham desses traços. Eu não me sinto conectado com aqueles que são exclusivistas, elitistas e que pensam que seu modo de vida é um modelo de como os outros devem viver. Minha filosofia foi feita pelo pensamento aberto de meus pais é claro, mas também através da desordem que eu vivenciei enquanto crescia. Enquanto eu percebia que muitas crianças sofreram mais do que eu, encontrei muita gente que se auto-intitulava punk e que tiveram experiências parecidas com as minhas.

(...)

Estranhamente, o punk está rapidamente se tornando mainstream. No ano passado, mais pessoas compraram discos punks, vídeos, camisas e ingressos para shows do que nunca antes. Como em qualquer situação capitalista, o mercado punk está vivenciando uma mudança para longe da idéia original da arte (ou produto), em direção à criação de uma crença ou doutrina acerca do mercado do produto. Por que as gravadoras iriam rotular-se como gravadoras punks? Por que elas estão vendendo estilo e construindo uma subcultura, ao invés de promover honestidade e criatividade de seus artistas. Esse é um triste padrão na indústria da música que ocorre tanto nos selos independentes quanto nas grandes gravadoras. Portanto, não é de se estranhar que exista muita polícia punk por aí, monitorando se bandas como a nossa se encaixam no estereótipo e em suas visões dogmáticas de aceitabilidade. Elas exibem o mesmo comportamento dos clones acadêmicos que se graduam aos montes a cada ano, prontos para discriminar aqueles que desafiam suas ideologias ensinadas. A carta que eu recebi há duas semanas de um fã descontente, foi tristemente remanescente da perseguição que senti na escola dos doidões. É também um exemplo claro de como é fácil seguir a corrente e advogar sentimentos comuns e sem embasamento, os quais acabam me motivando a provocar ainda mais. “


Texto de 1996 - e totalmente atual.
Tá falado, Greg!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O SORRISO DO DIA...

WHY SO SERIOUS? EAT AND PUT A SMILE IN YOUR FACE!


Coma o hamburger e mate sua fome. Ou mate seu estômago. Ou mate sua dignidade. Ou mate sua liberdade de não querer. Sem aquele niilismo de que trata-se de um império e que estamos contribuindo para que ele cresça e domine o mundo, nada disso. É mais um alerta. Não é só ambição e dinheiro. É diversão também. Consomem você e dão de brinde uns brinquedinhos. Se a criança pede, esperneia e a mãe diz que não, ele dá murros com aquela mão pequenina nas pernas dela: “comporte-se menino, senão não eu dou seu sanduíche para aquele moço!” No futuro, ele dará murros diferentes por brinquedos diferentes. Mas antes, lembre-se, só era uma criança de cinco anos e queria o Ben-10 que vinha na caixinha.

Mas no final das contas, o que fica na propaganda é o tal do “ame muito tudo isso!”.

E tem aquelas pessoas que se matam de trabalhar. Que atendem pessoas egoístas que acham que seu atendimento dever ser “especial” ou que é um absurdo não ter aquela promoção do cartaz porque a carne de porco acabou. Eles não ouvem muitos obrigados sinceros no seu dia, pois as pessoas estão comendo com pressa: estão no seu horário de almoço, ou estão com suas famílias esperando na mesa que guardaram com muito custo na praça de alimentação lotada e barulhenta do shopping center, ou porque se esquecem de que aquele atendente também é humano. A situação se inverteu? Quando eles é que estão no seu horário de almoço, ou comem aquelas mesmas batatas fritas que preparam o dia inteiro, ou agem com a mesma frieza com que foram tratados há algumas horas. Não ouvem obrigado de seus clientes e não agradecem também.

Mas afinal, é gostoso? Ou tem muito mais coisa que te impulsiona a comer aquela comida. Existem os boatos, certo? Carne de rato, colocam uma coisa que torna o sabor inigualável, feitiçaria, as cores do logotipo que controlam, mensagens satânicas...falam mal, falam mal...mas será que é aquele velho “quem desdenha é porque quer”? Se fosse você andando de carro zero, fazendo compras caras, não deixaria o x-tudo da rodoviária para comer o hamburger com refrigerante de cola e batata frita? No final das contas, aonde as críticas levam? As pessoas estão tentando fugir do controle, do medo, do sanduíche? Estão tentando usar a arma a seu favor? Ou realmente comem no Dia Feliz achando que estão fazendo um bem para a humanidade ajudando crianças com câncer?

Sabemos o que estamos criticando? Não fale mal apenas porque deseja muito o contrário. Entenda o processo das coisas: de onde vem, para onde vai; as custas de quem. A finalidade de tudo isso é fazer valer o slogan, pressionando os homens e mulheres a querer sem precisar. Não é loucura e, repito, não é niilismo raivoso. Mas entenda que quando as pessoas se matam umas as outras, numa guerra silenciosa, para consumir a promoção sanduíche-refrigerante-batata frita, o palhaço do crime ri e diz: “eu sou um agente do caos; eu só faço as coisas”.

Dica barulhenta: não é só feriado que não existe no Camboja; procure um McDonalds lá...como O Coringa, Dead Kennedys é perigoso e divertido!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

OS INCANSÁVEIS DA CEILÂNDIA

Ótimo texto para se repensar a tênue e histórica linha que define a luta de classes...
Ana Miranda
www.anamirandaliteratura.hpgvip.com.br

“Ali há forró, rap, repentistas, hino oficial, cachaça, feira do Periquito, professora Francisca Vicentina, Academia de Letras, Biblioteca Pública e das grandes”
Cabelos arrumados no posto, chegado o poeta Nicolas Behr, rumamos para a Ceilândia, ao encontro do historiador Manoel Jevan, que sabe muito sobre o lugar onde mora, coisa rara e boa. Ele levou-nos à Caixa d’água, a uma palmeira guariroba, a uma banca de rua onde vendem livros, ao projeto de Niemeyer, “o único numa cidade do Entorno”, disse Jevan, orgulhoso, e mostrou-nos a Casa do Cantador.
O cearense Manoel Jevan fez em sua casa um museu de memória da cidade, onde estão fotos, filmes, documentos sobre a criação da Ceilândia e uma reprodução do poema de Drummond, que confronta “a suntuosa Brasília e a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar da goela coletiva e não se exprimem? Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea capital?”
Ceilândia para mim evocava Ceilão, mas disse o historiador que vem de CEI, sigla de Campanha de Erradicação das Invasões. Em 1971, poderes públicos decidiram retirar de suas casas muitos dos construtores de Brasília, operários e suas famílias, que foram chamados de invasores porque moravam onde “não-invasores” esqueciam de possuir, moravam em lugares bons e desejados pelos abastados, ou que sujavam a vista dos pássaros de aço: Vila IAPI, Placa de Mercedes, Tenório, Esperança, Morro do Urubu, Querosene... Foram quinze mil barracos derrubados. A maioria dessas pessoas era nordestina, muitas tinham chegado a Brasília no ano da grande seca, flageladas.
Os poderes escolheram, para fundar uma nova cidade satélite, um lugar instável, brejo capaz de engolir casas, onde havia erosão, onde não tinha sido possível instalar um campo de pouso, e foi desse grande terreno que distribuíram um barril de lotes, e as casas foram sendo erguidas, o eterno recomeço das pessoas, ainda mais as honestas, trabalhadoras e pobres. A cidade cresceu de qualquer jeito, sem os “poderes” a organizar, já não é mais esquálida, é imensa.
Os habitantes tiveram de se arrumar eles mesmos, e se ajeitaram, criaram uma das mais fortes organizações de moradores, os Incansáveis, mudaram o significado da sigla, tomaram posse, ficaram orgulhosos, muitos passam o dia em Brasília, trabalhando, mas muitos ficam por ali e vão desenvolvendo a cidade. Ali há todo um universo que eles compreendem, amam. Ali há forró, rap, repentistas, hino oficial, cachaça, feira do Periquito, professora Francisca Vicentina, Academia de Letras, Biblioteca Pública e das grandes, gente que gosta de ler, orquestra sinfônica, Apa do Descoberto, parque ecológico, dona Percília, dona Jabesminda, Helroy, Ângela das Caliandras (que beleza de nome), corações clandestinos... Teresinha do Coco, Galdino de Atalaia, pioneiros, pontas de flecha de cristal, o poeta Joaquim Bezerra da Nóbrega, quem sabe meu parente lá do Sabugi na Paraíba, que canta: “Ceilândia, eis o meu lar, Pra onde sempre eu regresso”.
Senti-me bem na Ceilândia. É uma cidade de alma nordestina, ali tem algo de minha terra, tem até jornal do Ceará, e algo a ser entendido por todos. Ceilândia pode não ser bonita aos olhos acostumados a majestosos e orgulhosos padrões, mas aos olhos atentos ali há beleza, a de um Brasil verdadeiro e profundo, lutador, alegre, que corre nas margens, é a goela coletiva de que fala Drummond.

http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_83.htm
07/12/08

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Não se iluda com os pisos do Shopping Center

Faça um tour pelo Shopping Conjunto Nacional, Brasília/DF e perceba: Você é estimulado inconcientemente a andar seletivamente pelos seus pisos. Se você lê esse blog, dificilmente você utilliza outra loja do 1º piso do Conjunto que não seja a praça de alimentação - pra comer fast food, porque há coisas ali que não cabem no nosso bolso - o Banco do Brasil ou, vez ou outra, a Siciliano. Um centro comercial que tem uma "apelação" popular, se responsabiliza por deixar os menos favorecidos no térreo ou no subsolo - não para estacionar seu "carro", mas para abrir crediário com muito custo para comprar em um milhão de vezes aquela geladeira que, supostamentem, encontra-se em "promoção" nas Casas Qualquer-Coisa ou Ponto Temperatura-Amena. Ah, claro! Você pode comprar enfeites de natal nas Lojas Latino-Americanas.

Lá em cima, os óculos de sol valem uma compra para dois meses em casa, ou você compra um vestido esquisito que vale um veículo. Sei lá, talvez até um perfume que valha um ano de contas de água a pagar. Ou velas que custeiem várias contas da CEB.

Lojas pequenas e devoradoras do consumismo humano, como um triturador de lixo. O jeans do primeiro piso pode ser tão resistente quanto o que o ambulante vende na feira popular da Ceilândia - ou de qualidade pior... - mas existe a porra de um status (status quo) que oprime o balconista da mesma lanchonete fast food no mesmo andar desse mesmo shopping a economizar meses e mais meses de seu suado salário para comprar esse jeans que, ilusoriamente lhe coloca no ápice social: "eu POSSO vestir o mesmo que esse filhinho ou filhinha de papai veste. Eu também SOU." Mesmo que esse "SER" seja o oposto daquilo que o originou, ou seja, um fardo pesado em suas costas lhe obrigando a adquiri-lo. E olha que essa loja de jeans está a poucos metros da lanchonete.


Não se iluda com os pisos de um Shopping Center. Nada é por acaso. Enquanto você passeia olhando ao acaso essas vitrines coloridas, o mundo grita em seu ouvido.

DICA BARULHENTA: "Aids, pop & repressão, o que é que eu fiz para merecer issoooooaaahhh!!!!!!!"

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Caminhada Punk e meu encontro comigo mesmo

É difícil definir identidade. Na verdade, pra mim, sempre foi difícil definir algo assim. É como se eu fosse, ao mesmo tempo, David Bowie, Lewis Carroll, Paulo Freire e Eu mesmo ao mesmo tempo - se é que eu consegui ser claro... Essa minha caminhada durou muito...muito tempo. Talvez dure até hoje...


Entretanto, nesse caminho, encontramos referenciais, histórias que impressionam, que despertam, que desiludem - ou iludem - a forma de pensar. E, de alguma forma, alguma dessas coisas que nos param na trajetória, já nos era familiar, já imergia do âmago do ser e se manifestava de maneira mutante.


Certa vez, li numa matéria o Ariel, do Invasores de Cérebro, dizer que ele e seus companheiros já eram punks antes de conhecer o movimento. A única coisa que fizeram depois foi cortar os cabelos e apertar as calças.


Descobri que eu fazia uma caminhada que me levava ao encontro de OUTRA. Que era meu dever encontrar alguma coisa perdida no meio de uma massa ideológica confusa, algo que me dissesse "faça você mesmo". É o que estou tentanto FAZER. Um certo dia, encotrei algo que vai além da música que já estava me deixando surdo. Encontrei a convergência do que eu pensava, voltada para um sentimento de busca de uma revoluçao sua para algo maior. Sei lá, meio Gramsci, talvez - me desculpem essa clareza, mas as revoluções são construídas de várias formas, uma delas, acredito, é gramscianamente. A mudança que eu acreditava era possível! É possível.


Existe uma caminhada punk. Não sou o mestre desse pensamento. Existe uma raiva, a revolta e a vontade de fazer acontecer. Minha via é a educação. Que libertará, com certeza. E punks se espalham pelo mundo, pela vida, lutando pelo que acreditam levar a mudança - independente de qualquer divergência de pensamento!


Estou nessa caminhada. Um caminho claro para mim! A mudança está ali. Vou suar para fazê-la girar, para acontecer. Não bradarão meu nome, não é essa a intenção. O que move meus pés é a certeza de que estou fazendo a coisa CERTA. Que a raiva vai além do que arde no peito. Que ela move como combustível esse veículo revolucionário que é - ou deveria ser - o HOMEM. A inteligência a serviço da luta. Seja ela armada de metal ou de palavras, de ódio ou de amor!

Me juntei. Existe a CONTRACULTURA! Há vida, sangue e amor. E música também!!!
Dica barulhenta: que Ramones que nada. Começe ouvindo GBH e "pogueie" até não poder mais!!!






terça-feira, 6 de novembro de 2007

Na noite em quem minha raiva explodiu em amor...

Era uma noite quente, lua cheia enorme e amarelada no céu. A escuridão do horizonte coberto por algodões negros estavam iluminados por clarões prateados.
Uma gótica. Seu vestido preto longo. Luvas negras sedosas. Olhos pintados com maquiagem pesada.
A hora? Eram 4:07 da madrugada, do dia 28/10/2007. Numa festa gotica-industrial.
Ela dançava. De repente não mais que de repente, o som de mOBSCENE pára. Meu namorado desapareceu. Eu vejo as pessoas falando “silencio por favor ele vai falar” “ silencio". Eu paro para olhar o amor da vida naquela mesa de DJ. E ele diz:

- Obrigado... Desculpa interromper o som. Mas eu preciso dizer algo muito importante.
...Essa noite eu vim aqui com um propósito. Eu pedi para que colocassem as músicas do Marilyn Manson. As que meu amor mais gosta. E na frente de pessoas que a gente mal conhece... ao som desse cara que ela adora (MM) ... rs...eu queria dizer .. wanda... casa comigo pelo amor de Deus!!!

Não preciso dizer que meu coração cinza e ressequido, recebeu uma gota de suco de cereja ( rs... ) pulsou forte dentro do peito... eu me sentia muito mais viva. Fiquei estática.
Ele desceu da mesa do DJ. Caminhando até mim no meio da galera. Encarando-me. Aquele homem pálido, cabelo preto, com indumentária dark, se ajoelhou na minha frente. As mãos brancas, de unhas ( por mim ) pintadas de preto tiraram do casaco social, uma caixinha pequena de veludo preto. Dentro, havia duas alianças de ouro, lindas, lado a lado. Os olhos maquiados me encaram. Um rapaz, que nem conheço, dentre os outros da festa se agitou e disse:
- Se vc dizer que não, você apanha agora!! . E sorriu olhando para nós.
Eu sorri nervosa e surpresa.
Estendi minha mão direita, que tinha uma aliança de prata a 5 anos.
O Rafael ( amigo nosso que estava como DJ) tocou mOBSCENE – no refrão – nessa hora as pessoas baterão palmas. Ele ainda me olhando nos olhos, tirou minha aliança de prata e trocou por uma de ouro, detalhada, com duas iniciais – L & W . As iniciais do Conde e a Condesa, que naquele momento se tornaram noivos.
Trocamos as alianças. Tudo, ao som de Marilyn Manson.
Perfeito.

by Condessa Wanda, Noiva Cadáver.

"As palavras sempre são poucas para explicar um momento de alegria intensa...que é o que eu estou sentindo agora, nesse momento.Sentirei sempre ao lado Dela. Eu não me canso de ler. Foi...PERFEITO. Um panfleto sobre uma revolução íntima, A REVOLUÇÃO DO AMOR.Eu não possuo palavras para gritar minha felicidade. Mas minha Condessa foi magistral na medida do nosso amor.

Cada letra desse depoimento é um beijo em meus lábios. Todos leiam e sintam umidecer a boca, esquentar o coração..."

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

...amenizando o volume alto para contar "A música de Michelle"

No quarto, as quatro horas da manhã, a francesinha Michelle sonha com os instantes seguintes. Hoje será o dia decisivo de seu recital de piano, na escola de música, onde entrou há quatro anos. O tempo passa tão veloz quanto seus dedos que deslizam pelas teclas do belo instrumento que tem a sua frente, presente de um tio que achava que ela nunca seria capaz de tocá-lo. Não que Michelle fosse sem talento, muito pelo contrário. Mais nova de três irmãs que cantavam como pipiras em tempo de manga quando pequeninas, sempre teve a voz mais saliente. Mas não acreditavam que pudesse, um dia, alcançar notas além do banheiro ou de seu quarto. Tampouco queria dizer que seu tio não gostasse dela. Se não gostasse, não a teria presenteado com tamanha maravilha instrumental. O piano foi achado numa dessas lojas de usados, cujo vendedor garantiu que seria o mais forte já criado pela mão humana e que Chopin teria adiado sua morte se o tivesse tocado. Para o tio, de posses modestas, isso significava que o trambolho servia, pouco importando quem era esse tal que falara-lhe o homem. Michelle tinha dezesseis anos quando o ganhou, ouvindo seu tio dizer-lhe: “espero que aproveite-o bastante”. Ela sabia que aquela fala carregava mais do que parecia querer dizer. Que mesmo com sua felicidade e com o paparico de todos por conta desse presente, o pensamento que imperava sobre essa passagem era o de como a mocinha de fala macia, tímida e sorridente poderia tocar algo tão pomposo. Suas especulações iam além, pois poderiam estar pensando sobre como ela daria uma utilidade aquilo, que não fosse apenas brincadeira com o som das teclas. Michelle já estava acostumada com isso. Michelle é cega.
Quando ainda era uma bonequinha de fraldas e andar desengonçado, a mãe percebeu algo diferente, alguma coisa que não estava certa. Michelle demorou aprender a falar, mas sempre soube. Michelle pensa que se pudesse, naquela época teria se esforçado ao máximo para dizer aos pais que o que enxergava eram apenas vultos e que isso gradativamente piorava. Complicado demais, simples demais.
Quando Michelle aprendeu a falar, era uma menina triste. Essa, aliás, foi a primeira palavra que pronunciou: triste. Era assim que ela se sentia quando ouvia as irmãs falarem de coisas que ela não podia ver. Era assim que ela se sentia por ouvir ruídos que ela adoraria saber de onde vinham, mas não podia. Por não poder ver os tais desenhos animados com seus personagens coloridos que tanto falavam seus colegas. Michelle por vezes ficava a um canto, dedinho traçando círculos nas coxas, com o pensamento distante. Achava que não ver a impedia mesmo até de imaginar. Era como se estivesse ela em uma caixa escura e houvesse todo um mundo lá fora, cheio de imagens coloridas, vibrantes, rostos e formas fascinantes.
Era feliz quando cantava. Inventava junto com as irmãs canções de roda, musicas românticas, serenatas. Sozinha, lembrava-se dos sons que emanavam do radio e repetia os versos e ritmos que lembrava. Cantar pode não ter sido sua segunda palavra a ser aprendida, mas foi sua primeira alegria. Cantou até um dia descobrir que seu pai, também um fã de música, possuía uma coleção de discos, daqueles antigos LPs em vinil e uma vitrola. Pediu a ele que a apresentasse algumas daquelas canções, e foi quando ela parou de cantar e ouviu. Ouviu e sorriu, como nunca havia sorrido. Aquela musica a fazia assim, simplesmente sorrir. O pai dizia que aquilo que girava na vitrola chamava-se Beatles e que eles eram um grupo precursor de sua época. Faziam rock and roll e ela, Michelle, descobriu que gostava, gostava muito daquilo.
Michelle, tato apuradíssimo, aprendeu com destreza fenomenal a operar a velha vitrola sem ajuda de ninguém. Escutou tudo que havia sobre os Beatles naqueles discos. Pedia para seu pai contar-lhe sobre eles. Aprendeu rápido os nomes, Paul, John, George e Ringo. Logo sabia todas as musicas, além de ter aprendido inglês por meio delas. Gostava especialmente de uma, para ela a mais bonita. Trazia seu nome no título e a menina não se cansava de ouvir a musica dos reis do iê-iê-iê, que gentilmente se chamava Michelle. A francesinha se sentia linda sob seu som. O barulho da agulha sobre o disco antes da música, a entonação da voz de seu Beatle preferido cantando seu nome de maneira tão doce, Michelle se esqueceu que não possuía a visão. Para ela, o som declarando-se fazia com que não enxergar fosse algo insignificante. Na verdade, via de outra forma, com outros órgãos, outros sentidos. Sobretudo com a audição. De tanto amor que tinha por aquela canção, de tanto escutar os sons que lhe faziam bem, despertou o que veio a chamar de ouvido musical. Da escuta, passou a tocar. Os dedos sobre o piano faziam sentido agora. O mundo de Michelle se encheu de cores que nunca poderiam ser vistas por nenhuma outra pessoa pois elas não vinham da visão. Vinham de todas as outras vibrações que faziam o corpo de Michelle viver. Aprendeu a tocar e o fazia para todos ouvirem ao seu redor. A voz repetia as canções que lhe agradavam, repetia aquela com o seu nome. Todos aplaudiam.
São quatro e meia da manhã e Michelle toca o que irá apresentar nesse dia, em seu recital. Ensaiou exaustivamente. Nossa francesinha vai fazer com que todos ouçam seu nome. Vai cantar como canta seu Beatle preferido e se emocionará. Vai encher ao seu redor das cores que só ela vê, cores da música. Michelle é cega, mas enxerga coisas que ninguém conseguiria, nunca. E sorri.
Michelle
The Beatles
Michelle ma belle
These are words that go together well
My michelle
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
I love you, I love you, I love you
That’s all I want to say
Until I find a way
I will say the only words I know that you’ll understand
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
I need to, I need to, I need to
I need to make you see
Oh what you mean to me
Until I do I’m hoping you will know what I mean
I love you
I want you, I want you, I want you
I think you know by now
I’ll get to you somehow
Until I do I’m telling you so you’ll understand
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
And I will say the only words I know that you’ll understand
My michelle
Conde L.