segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O SORRISO DO DIA...

WHY SO SERIOUS? EAT AND PUT A SMILE IN YOUR FACE!


Coma o hamburger e mate sua fome. Ou mate seu estômago. Ou mate sua dignidade. Ou mate sua liberdade de não querer. Sem aquele niilismo de que trata-se de um império e que estamos contribuindo para que ele cresça e domine o mundo, nada disso. É mais um alerta. Não é só ambição e dinheiro. É diversão também. Consomem você e dão de brinde uns brinquedinhos. Se a criança pede, esperneia e a mãe diz que não, ele dá murros com aquela mão pequenina nas pernas dela: “comporte-se menino, senão não eu dou seu sanduíche para aquele moço!” No futuro, ele dará murros diferentes por brinquedos diferentes. Mas antes, lembre-se, só era uma criança de cinco anos e queria o Ben-10 que vinha na caixinha.

Mas no final das contas, o que fica na propaganda é o tal do “ame muito tudo isso!”.

E tem aquelas pessoas que se matam de trabalhar. Que atendem pessoas egoístas que acham que seu atendimento dever ser “especial” ou que é um absurdo não ter aquela promoção do cartaz porque a carne de porco acabou. Eles não ouvem muitos obrigados sinceros no seu dia, pois as pessoas estão comendo com pressa: estão no seu horário de almoço, ou estão com suas famílias esperando na mesa que guardaram com muito custo na praça de alimentação lotada e barulhenta do shopping center, ou porque se esquecem de que aquele atendente também é humano. A situação se inverteu? Quando eles é que estão no seu horário de almoço, ou comem aquelas mesmas batatas fritas que preparam o dia inteiro, ou agem com a mesma frieza com que foram tratados há algumas horas. Não ouvem obrigado de seus clientes e não agradecem também.

Mas afinal, é gostoso? Ou tem muito mais coisa que te impulsiona a comer aquela comida. Existem os boatos, certo? Carne de rato, colocam uma coisa que torna o sabor inigualável, feitiçaria, as cores do logotipo que controlam, mensagens satânicas...falam mal, falam mal...mas será que é aquele velho “quem desdenha é porque quer”? Se fosse você andando de carro zero, fazendo compras caras, não deixaria o x-tudo da rodoviária para comer o hamburger com refrigerante de cola e batata frita? No final das contas, aonde as críticas levam? As pessoas estão tentando fugir do controle, do medo, do sanduíche? Estão tentando usar a arma a seu favor? Ou realmente comem no Dia Feliz achando que estão fazendo um bem para a humanidade ajudando crianças com câncer?

Sabemos o que estamos criticando? Não fale mal apenas porque deseja muito o contrário. Entenda o processo das coisas: de onde vem, para onde vai; as custas de quem. A finalidade de tudo isso é fazer valer o slogan, pressionando os homens e mulheres a querer sem precisar. Não é loucura e, repito, não é niilismo raivoso. Mas entenda que quando as pessoas se matam umas as outras, numa guerra silenciosa, para consumir a promoção sanduíche-refrigerante-batata frita, o palhaço do crime ri e diz: “eu sou um agente do caos; eu só faço as coisas”.

Dica barulhenta: não é só feriado que não existe no Camboja; procure um McDonalds lá...como O Coringa, Dead Kennedys é perigoso e divertido!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

OS INCANSÁVEIS DA CEILÂNDIA

Ótimo texto para se repensar a tênue e histórica linha que define a luta de classes...
Ana Miranda
www.anamirandaliteratura.hpgvip.com.br

“Ali há forró, rap, repentistas, hino oficial, cachaça, feira do Periquito, professora Francisca Vicentina, Academia de Letras, Biblioteca Pública e das grandes”
Cabelos arrumados no posto, chegado o poeta Nicolas Behr, rumamos para a Ceilândia, ao encontro do historiador Manoel Jevan, que sabe muito sobre o lugar onde mora, coisa rara e boa. Ele levou-nos à Caixa d’água, a uma palmeira guariroba, a uma banca de rua onde vendem livros, ao projeto de Niemeyer, “o único numa cidade do Entorno”, disse Jevan, orgulhoso, e mostrou-nos a Casa do Cantador.
O cearense Manoel Jevan fez em sua casa um museu de memória da cidade, onde estão fotos, filmes, documentos sobre a criação da Ceilândia e uma reprodução do poema de Drummond, que confronta “a suntuosa Brasília e a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar da goela coletiva e não se exprimem? Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea capital?”
Ceilândia para mim evocava Ceilão, mas disse o historiador que vem de CEI, sigla de Campanha de Erradicação das Invasões. Em 1971, poderes públicos decidiram retirar de suas casas muitos dos construtores de Brasília, operários e suas famílias, que foram chamados de invasores porque moravam onde “não-invasores” esqueciam de possuir, moravam em lugares bons e desejados pelos abastados, ou que sujavam a vista dos pássaros de aço: Vila IAPI, Placa de Mercedes, Tenório, Esperança, Morro do Urubu, Querosene... Foram quinze mil barracos derrubados. A maioria dessas pessoas era nordestina, muitas tinham chegado a Brasília no ano da grande seca, flageladas.
Os poderes escolheram, para fundar uma nova cidade satélite, um lugar instável, brejo capaz de engolir casas, onde havia erosão, onde não tinha sido possível instalar um campo de pouso, e foi desse grande terreno que distribuíram um barril de lotes, e as casas foram sendo erguidas, o eterno recomeço das pessoas, ainda mais as honestas, trabalhadoras e pobres. A cidade cresceu de qualquer jeito, sem os “poderes” a organizar, já não é mais esquálida, é imensa.
Os habitantes tiveram de se arrumar eles mesmos, e se ajeitaram, criaram uma das mais fortes organizações de moradores, os Incansáveis, mudaram o significado da sigla, tomaram posse, ficaram orgulhosos, muitos passam o dia em Brasília, trabalhando, mas muitos ficam por ali e vão desenvolvendo a cidade. Ali há todo um universo que eles compreendem, amam. Ali há forró, rap, repentistas, hino oficial, cachaça, feira do Periquito, professora Francisca Vicentina, Academia de Letras, Biblioteca Pública e das grandes, gente que gosta de ler, orquestra sinfônica, Apa do Descoberto, parque ecológico, dona Percília, dona Jabesminda, Helroy, Ângela das Caliandras (que beleza de nome), corações clandestinos... Teresinha do Coco, Galdino de Atalaia, pioneiros, pontas de flecha de cristal, o poeta Joaquim Bezerra da Nóbrega, quem sabe meu parente lá do Sabugi na Paraíba, que canta: “Ceilândia, eis o meu lar, Pra onde sempre eu regresso”.
Senti-me bem na Ceilândia. É uma cidade de alma nordestina, ali tem algo de minha terra, tem até jornal do Ceará, e algo a ser entendido por todos. Ceilândia pode não ser bonita aos olhos acostumados a majestosos e orgulhosos padrões, mas aos olhos atentos ali há beleza, a de um Brasil verdadeiro e profundo, lutador, alegre, que corre nas margens, é a goela coletiva de que fala Drummond.

http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_83.htm
07/12/08

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Não se iluda com os pisos do Shopping Center

Faça um tour pelo Shopping Conjunto Nacional, Brasília/DF e perceba: Você é estimulado inconcientemente a andar seletivamente pelos seus pisos. Se você lê esse blog, dificilmente você utilliza outra loja do 1º piso do Conjunto que não seja a praça de alimentação - pra comer fast food, porque há coisas ali que não cabem no nosso bolso - o Banco do Brasil ou, vez ou outra, a Siciliano. Um centro comercial que tem uma "apelação" popular, se responsabiliza por deixar os menos favorecidos no térreo ou no subsolo - não para estacionar seu "carro", mas para abrir crediário com muito custo para comprar em um milhão de vezes aquela geladeira que, supostamentem, encontra-se em "promoção" nas Casas Qualquer-Coisa ou Ponto Temperatura-Amena. Ah, claro! Você pode comprar enfeites de natal nas Lojas Latino-Americanas.

Lá em cima, os óculos de sol valem uma compra para dois meses em casa, ou você compra um vestido esquisito que vale um veículo. Sei lá, talvez até um perfume que valha um ano de contas de água a pagar. Ou velas que custeiem várias contas da CEB.

Lojas pequenas e devoradoras do consumismo humano, como um triturador de lixo. O jeans do primeiro piso pode ser tão resistente quanto o que o ambulante vende na feira popular da Ceilândia - ou de qualidade pior... - mas existe a porra de um status (status quo) que oprime o balconista da mesma lanchonete fast food no mesmo andar desse mesmo shopping a economizar meses e mais meses de seu suado salário para comprar esse jeans que, ilusoriamente lhe coloca no ápice social: "eu POSSO vestir o mesmo que esse filhinho ou filhinha de papai veste. Eu também SOU." Mesmo que esse "SER" seja o oposto daquilo que o originou, ou seja, um fardo pesado em suas costas lhe obrigando a adquiri-lo. E olha que essa loja de jeans está a poucos metros da lanchonete.


Não se iluda com os pisos de um Shopping Center. Nada é por acaso. Enquanto você passeia olhando ao acaso essas vitrines coloridas, o mundo grita em seu ouvido.

DICA BARULHENTA: "Aids, pop & repressão, o que é que eu fiz para merecer issoooooaaahhh!!!!!!!"

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Caminhada Punk e meu encontro comigo mesmo

É difícil definir identidade. Na verdade, pra mim, sempre foi difícil definir algo assim. É como se eu fosse, ao mesmo tempo, David Bowie, Lewis Carroll, Paulo Freire e Eu mesmo ao mesmo tempo - se é que eu consegui ser claro... Essa minha caminhada durou muito...muito tempo. Talvez dure até hoje...


Entretanto, nesse caminho, encontramos referenciais, histórias que impressionam, que despertam, que desiludem - ou iludem - a forma de pensar. E, de alguma forma, alguma dessas coisas que nos param na trajetória, já nos era familiar, já imergia do âmago do ser e se manifestava de maneira mutante.


Certa vez, li numa matéria o Ariel, do Invasores de Cérebro, dizer que ele e seus companheiros já eram punks antes de conhecer o movimento. A única coisa que fizeram depois foi cortar os cabelos e apertar as calças.


Descobri que eu fazia uma caminhada que me levava ao encontro de OUTRA. Que era meu dever encontrar alguma coisa perdida no meio de uma massa ideológica confusa, algo que me dissesse "faça você mesmo". É o que estou tentanto FAZER. Um certo dia, encotrei algo que vai além da música que já estava me deixando surdo. Encontrei a convergência do que eu pensava, voltada para um sentimento de busca de uma revoluçao sua para algo maior. Sei lá, meio Gramsci, talvez - me desculpem essa clareza, mas as revoluções são construídas de várias formas, uma delas, acredito, é gramscianamente. A mudança que eu acreditava era possível! É possível.


Existe uma caminhada punk. Não sou o mestre desse pensamento. Existe uma raiva, a revolta e a vontade de fazer acontecer. Minha via é a educação. Que libertará, com certeza. E punks se espalham pelo mundo, pela vida, lutando pelo que acreditam levar a mudança - independente de qualquer divergência de pensamento!


Estou nessa caminhada. Um caminho claro para mim! A mudança está ali. Vou suar para fazê-la girar, para acontecer. Não bradarão meu nome, não é essa a intenção. O que move meus pés é a certeza de que estou fazendo a coisa CERTA. Que a raiva vai além do que arde no peito. Que ela move como combustível esse veículo revolucionário que é - ou deveria ser - o HOMEM. A inteligência a serviço da luta. Seja ela armada de metal ou de palavras, de ódio ou de amor!

Me juntei. Existe a CONTRACULTURA! Há vida, sangue e amor. E música também!!!
Dica barulhenta: que Ramones que nada. Começe ouvindo GBH e "pogueie" até não poder mais!!!






terça-feira, 6 de novembro de 2007

Na noite em quem minha raiva explodiu em amor...

Era uma noite quente, lua cheia enorme e amarelada no céu. A escuridão do horizonte coberto por algodões negros estavam iluminados por clarões prateados.
Uma gótica. Seu vestido preto longo. Luvas negras sedosas. Olhos pintados com maquiagem pesada.
A hora? Eram 4:07 da madrugada, do dia 28/10/2007. Numa festa gotica-industrial.
Ela dançava. De repente não mais que de repente, o som de mOBSCENE pára. Meu namorado desapareceu. Eu vejo as pessoas falando “silencio por favor ele vai falar” “ silencio". Eu paro para olhar o amor da vida naquela mesa de DJ. E ele diz:

- Obrigado... Desculpa interromper o som. Mas eu preciso dizer algo muito importante.
...Essa noite eu vim aqui com um propósito. Eu pedi para que colocassem as músicas do Marilyn Manson. As que meu amor mais gosta. E na frente de pessoas que a gente mal conhece... ao som desse cara que ela adora (MM) ... rs...eu queria dizer .. wanda... casa comigo pelo amor de Deus!!!

Não preciso dizer que meu coração cinza e ressequido, recebeu uma gota de suco de cereja ( rs... ) pulsou forte dentro do peito... eu me sentia muito mais viva. Fiquei estática.
Ele desceu da mesa do DJ. Caminhando até mim no meio da galera. Encarando-me. Aquele homem pálido, cabelo preto, com indumentária dark, se ajoelhou na minha frente. As mãos brancas, de unhas ( por mim ) pintadas de preto tiraram do casaco social, uma caixinha pequena de veludo preto. Dentro, havia duas alianças de ouro, lindas, lado a lado. Os olhos maquiados me encaram. Um rapaz, que nem conheço, dentre os outros da festa se agitou e disse:
- Se vc dizer que não, você apanha agora!! . E sorriu olhando para nós.
Eu sorri nervosa e surpresa.
Estendi minha mão direita, que tinha uma aliança de prata a 5 anos.
O Rafael ( amigo nosso que estava como DJ) tocou mOBSCENE – no refrão – nessa hora as pessoas baterão palmas. Ele ainda me olhando nos olhos, tirou minha aliança de prata e trocou por uma de ouro, detalhada, com duas iniciais – L & W . As iniciais do Conde e a Condesa, que naquele momento se tornaram noivos.
Trocamos as alianças. Tudo, ao som de Marilyn Manson.
Perfeito.

by Condessa Wanda, Noiva Cadáver.

"As palavras sempre são poucas para explicar um momento de alegria intensa...que é o que eu estou sentindo agora, nesse momento.Sentirei sempre ao lado Dela. Eu não me canso de ler. Foi...PERFEITO. Um panfleto sobre uma revolução íntima, A REVOLUÇÃO DO AMOR.Eu não possuo palavras para gritar minha felicidade. Mas minha Condessa foi magistral na medida do nosso amor.

Cada letra desse depoimento é um beijo em meus lábios. Todos leiam e sintam umidecer a boca, esquentar o coração..."

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

...amenizando o volume alto para contar "A música de Michelle"

No quarto, as quatro horas da manhã, a francesinha Michelle sonha com os instantes seguintes. Hoje será o dia decisivo de seu recital de piano, na escola de música, onde entrou há quatro anos. O tempo passa tão veloz quanto seus dedos que deslizam pelas teclas do belo instrumento que tem a sua frente, presente de um tio que achava que ela nunca seria capaz de tocá-lo. Não que Michelle fosse sem talento, muito pelo contrário. Mais nova de três irmãs que cantavam como pipiras em tempo de manga quando pequeninas, sempre teve a voz mais saliente. Mas não acreditavam que pudesse, um dia, alcançar notas além do banheiro ou de seu quarto. Tampouco queria dizer que seu tio não gostasse dela. Se não gostasse, não a teria presenteado com tamanha maravilha instrumental. O piano foi achado numa dessas lojas de usados, cujo vendedor garantiu que seria o mais forte já criado pela mão humana e que Chopin teria adiado sua morte se o tivesse tocado. Para o tio, de posses modestas, isso significava que o trambolho servia, pouco importando quem era esse tal que falara-lhe o homem. Michelle tinha dezesseis anos quando o ganhou, ouvindo seu tio dizer-lhe: “espero que aproveite-o bastante”. Ela sabia que aquela fala carregava mais do que parecia querer dizer. Que mesmo com sua felicidade e com o paparico de todos por conta desse presente, o pensamento que imperava sobre essa passagem era o de como a mocinha de fala macia, tímida e sorridente poderia tocar algo tão pomposo. Suas especulações iam além, pois poderiam estar pensando sobre como ela daria uma utilidade aquilo, que não fosse apenas brincadeira com o som das teclas. Michelle já estava acostumada com isso. Michelle é cega.
Quando ainda era uma bonequinha de fraldas e andar desengonçado, a mãe percebeu algo diferente, alguma coisa que não estava certa. Michelle demorou aprender a falar, mas sempre soube. Michelle pensa que se pudesse, naquela época teria se esforçado ao máximo para dizer aos pais que o que enxergava eram apenas vultos e que isso gradativamente piorava. Complicado demais, simples demais.
Quando Michelle aprendeu a falar, era uma menina triste. Essa, aliás, foi a primeira palavra que pronunciou: triste. Era assim que ela se sentia quando ouvia as irmãs falarem de coisas que ela não podia ver. Era assim que ela se sentia por ouvir ruídos que ela adoraria saber de onde vinham, mas não podia. Por não poder ver os tais desenhos animados com seus personagens coloridos que tanto falavam seus colegas. Michelle por vezes ficava a um canto, dedinho traçando círculos nas coxas, com o pensamento distante. Achava que não ver a impedia mesmo até de imaginar. Era como se estivesse ela em uma caixa escura e houvesse todo um mundo lá fora, cheio de imagens coloridas, vibrantes, rostos e formas fascinantes.
Era feliz quando cantava. Inventava junto com as irmãs canções de roda, musicas românticas, serenatas. Sozinha, lembrava-se dos sons que emanavam do radio e repetia os versos e ritmos que lembrava. Cantar pode não ter sido sua segunda palavra a ser aprendida, mas foi sua primeira alegria. Cantou até um dia descobrir que seu pai, também um fã de música, possuía uma coleção de discos, daqueles antigos LPs em vinil e uma vitrola. Pediu a ele que a apresentasse algumas daquelas canções, e foi quando ela parou de cantar e ouviu. Ouviu e sorriu, como nunca havia sorrido. Aquela musica a fazia assim, simplesmente sorrir. O pai dizia que aquilo que girava na vitrola chamava-se Beatles e que eles eram um grupo precursor de sua época. Faziam rock and roll e ela, Michelle, descobriu que gostava, gostava muito daquilo.
Michelle, tato apuradíssimo, aprendeu com destreza fenomenal a operar a velha vitrola sem ajuda de ninguém. Escutou tudo que havia sobre os Beatles naqueles discos. Pedia para seu pai contar-lhe sobre eles. Aprendeu rápido os nomes, Paul, John, George e Ringo. Logo sabia todas as musicas, além de ter aprendido inglês por meio delas. Gostava especialmente de uma, para ela a mais bonita. Trazia seu nome no título e a menina não se cansava de ouvir a musica dos reis do iê-iê-iê, que gentilmente se chamava Michelle. A francesinha se sentia linda sob seu som. O barulho da agulha sobre o disco antes da música, a entonação da voz de seu Beatle preferido cantando seu nome de maneira tão doce, Michelle se esqueceu que não possuía a visão. Para ela, o som declarando-se fazia com que não enxergar fosse algo insignificante. Na verdade, via de outra forma, com outros órgãos, outros sentidos. Sobretudo com a audição. De tanto amor que tinha por aquela canção, de tanto escutar os sons que lhe faziam bem, despertou o que veio a chamar de ouvido musical. Da escuta, passou a tocar. Os dedos sobre o piano faziam sentido agora. O mundo de Michelle se encheu de cores que nunca poderiam ser vistas por nenhuma outra pessoa pois elas não vinham da visão. Vinham de todas as outras vibrações que faziam o corpo de Michelle viver. Aprendeu a tocar e o fazia para todos ouvirem ao seu redor. A voz repetia as canções que lhe agradavam, repetia aquela com o seu nome. Todos aplaudiam.
São quatro e meia da manhã e Michelle toca o que irá apresentar nesse dia, em seu recital. Ensaiou exaustivamente. Nossa francesinha vai fazer com que todos ouçam seu nome. Vai cantar como canta seu Beatle preferido e se emocionará. Vai encher ao seu redor das cores que só ela vê, cores da música. Michelle é cega, mas enxerga coisas que ninguém conseguiria, nunca. E sorri.
Michelle
The Beatles
Michelle ma belle
These are words that go together well
My michelle
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
I love you, I love you, I love you
That’s all I want to say
Until I find a way
I will say the only words I know that you’ll understand
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
I need to, I need to, I need to
I need to make you see
Oh what you mean to me
Until I do I’m hoping you will know what I mean
I love you
I want you, I want you, I want you
I think you know by now
I’ll get to you somehow
Until I do I’m telling you so you’ll understand
Michelle ma belle
Sont les mots qui vont trés bien ensemble
Trés bien ensemble
And I will say the only words I know that you’ll understand
My michelle
Conde L.